Conhecido no inferno - Leonard Ravenhill

Conhecido No Inferno

Alguns pregadores dominam bem o assunto de que tratam; outros
são dominados por ele. De vez em quando encontramos um que
além de dominá-lo bem, também é dominado por ele. Tenho certeza
de que o apóstolo Paulo pode ser incluído entre estes.
Vejamos um episódio ocorrido em Éfeso (At 19). Sete homens
estavam tentando libertar um endemoninhado, utilizando determinada
fórmula religiosa. Mas dirigir termos teológicos e até mesmo
versículos bíblicos a um endemoninhado é um método ineficaz de
libertação. Seria o mesmo que tentar deslocar a rocha de Gibraltar
atirando-lhe bolas de neve. E o homem dominado pelo demônio,
apesar de ser um só, subjugou facilmente aqueles tolos. E enquanto
os filhos de Ceva saíam correndo para a rua, nus e derrotados, o que
estava possesso de um espírito imundo acrescentava ao seu guardaroupa
mais sete vestes. E a imagem dos sete, feridos e
amedrontados, já dizia tudo. Mas Deus usou a insensatez deles para
glorificar o nome de Cristo, pois por causa desse episódio o nome
dele foi engrandecido. Adeptos do espiritismo foram salvos; judeus e
gregos se converteram; queimaram-se, em enorme fogueira, livros de
artes mágicas, cujo valor chegava a cinqüenta mil moedas de prata.
Certamente esse acontecimento fez com que até a ira humana o louvasse
(Sl 76.10). E observemos ainda o testemunho do demônio: “Conheço a
Jesus, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?” (At 19.15). Esse é o maior
elogio que o inferno pode fazer a alguém: associar seu nome ao de Jesus.
Mas como foi que Paulo se tornou este tipo de cristão? Por que os
demônios o conheciam? Já o haviam derrotado também, ou fora ele quem
os derrotara? Pensemos um pouco nesse apóstolo. Ele conhecia a Deus
intimamente, a ponto de o Senhor lhe fazer revelações. Os anjos o serviam;
suas orações provocavam terremotos. Suas palavras, dinamizadas pelo
poder do Espírito, estraçalharam os grilhões que acorrentavam uma jovem
dominada por espíritos malignos, que era explorada por seus patrões
fazendo adivinhações. Em Corinto, esse poderoso homem de Deus ensinou 
a Palavra e estabeleceu uma igreja, bem à porta do diabo. Mais tarde,
conquistou almas na própria casa de César, bem debaixo do nariz do
imperador. E sentia-se perfeitamente à vontade até na presença de reis:
“Tenho-me por feliz, ó rei Agripa!” Além disso, invadiu os domínios da capital
intelectual do mundo com a mensagem da ressurreição, chegando a deixar
confusos os seus sábios. Enquanto Paulo viveu, o inferno não teve paz.
Mas qual era a armadura dele? Onde afiava sua espada? Uma
expressão que ele emprega várias vezes é: “Estou bem certo”. Esse é o
segredo de tudo. Ele se achava dominado pela verdade revelada, como se
ela possuísse garras. E a Palavra de Deus, como o próprio Deus, é imutável.
O apóstolo estava como que ancorado nas profundezas da fidelidade de
Deus. Sua arma era a Palavra do Senhor; sua força era a fé que
depositava na Palavra, Então o Espírito o alertava a respeito da estratégia
que o diabo iria utilizar contra ele. Paulo estava sempre ciente de seus
estratagemas. E assim o inferno se desesperava. Mesmo numa ocasião
em que alguns homens tencionavam assassiná-lo, alguém descobriu a
trama, e assim os demônios e homens viram seu plano frustrado.
Estar salvo do inferno e livre de cometer os pecados mais grosseiros é
muito bom, mas, a meu ver, é uma condição espiritual muito elementar.
Quando Paulo foi à cruz de Cristo, experimentou o milagre da regeneração e
da conversão. Mas, depois, quando foi crucificado com Cristo, conheceu um
milagre maior, o da identificação. Acredito ser esse o mais forte argumento
do apóstolo — estar morto e vivo, ao mesmo tempo. “Porque morrestes”, diz
Paulo aos colossenses. Vamos aplicar isso à nossa vida. Nós já morremos?
Já morremos para as acusações e para os elogios? Morremos para o que
ocorre no mundo, para as opiniões humanas? Morremos a ponto de não
fazer mais caso do reconhecimento dos outros? Morremos de tal modo que
não protestaremos se alguém receber os louvores por algo que foi idéia
nossa? Ah que sublime, doce e gratificante experiência essa, de termos
Cristo vivendo em nós por meio de seu Espírito! E assim podemos cantar
como Wesley:

“Morri para o mundo e seus prazeres
Para sua inútil pompa e gozo passageiro!
Jesus, sê minha glória!”

E, Paulo havia morrido. Mas depois acrescenta: “Já não sou eu quem
vive”. O cristianismo é a única religião do mundo cujo Deus vive dentro
daquele que crê nele. E Paulo já não lutava mais contra a carne (nem
contra a sua, nem a dos outros). Sua luta agora era contra “os principados e
potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso”. Será que isso
explica por que aquele demônio disse: “e sei quem é Paulo!” É que o 
apóstolo estivera lutando contra as potestades demoníacas. (Em nossos
dias, essa arte de ligar e desligar que Paulo dominava tão bem está quase
esquecida, ou totalmente ignorada). E ao dar a última volta de sua corrida
terrena, ele afirmou: “Combati o bom combate”. Os demônios devem ter
dito “amém” a essa declaração, pois sofreram mais com Paulo do que o
apóstolo com eles. É verdade. Paulo era conhecido no inferno.
Outro fator que o levava a ser tão destemido era o conhecimento que
tinha da ira de Deus para com o pecado. “E assim conhecendo o temor do
Senhor, persuadimos aos homens”. (2Co 5.11). Paulo via o pecador como
um perdido! Outro dia vi alguém projetar um eslaide numa tela, mas a
imagem estava embaçada, e não dava para identificar nada. Mas aí o
operador acertou o foco e como a imagem melhorou! Assim também, nós, os
crentes, estamos precisando enxergar com clareza o estado de perdição em
que se encontram os homens, pois nossos olhos se acham embaçados com
relação à eternidade. É preciso que Deus acerte o foco de nossa visão.
Paulo amava a Deus com perfeito amor e por isso odiava o pecado com
ódio ferrenho. Por isso também via as pessoas não apenas como meros
pródigos, mas também como rebeldes contra Deus; não apenas como se
afastados da retidão, mas como conspiradores, aliados com a iniqüidade,
que teriam de ser castigados ou então perdoados. E ele atacava a impiedade
dos que se achavam subordinados às potestades demoníacas, com a
intensidade do ardente fogo do amor. Sua senha era: “Uma coisa faço”.
Ele não tinha interesses secundários, nem livros para vender. Não tinha
ambições pessoais, por isso não tinha nada para zelar. Não tinha reputação,
logo não tinha que lutar para defendê-la. Não possuía bens; portanto não
tinha nada com que se preocupar. Não tinha direitos, então não havia
motivos para se julgar vítima de injustiças. Já era falido; quem poderia
roubar dele? Estava “morto”, quem poderia matá-lo? Era menor do que os
menores; portanto ninguém conseguiria humilhá-lo. Perdera todas as coisas,
logo ninguém poderia lográ-lo. Será que isso explica melhor por que o
demônio disse: “E sei quem é Paulo?” O inferno deve ter tido muita dor de
cabeça com esse homem cheio de Deus.
E havia ainda outra âncora, na qual se firmava esse grande homem de
Deus: a eficácia do sangue de Jesus e sua capacidade de salvar
totalmente. “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Verdade,
mas Cristo pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus. Que o
mundo possa vir a conhecer esse Cordeiro que opera tão perfeita
expiação! Para Paulo a expiação não era algo limitado. Fora zelote e
continuava a ser. À luz de um inferno eterno de que valeriam os efêmeros
bens terrenos?
E em nossos dias também, de que valem as honrarias humanas? Ou
os planos do inferno? Neste momento os homens estão tão perdidos como
estarão depois que morrerem. Neste momento, a alma deles está sendo
arrastada para um redemoinho de terrível iniqüidade, que por fim os
precipitará no inferno eterno. Isso é verdade? Paulo estava convicto de que
o era. Então, “Desperta, desperta, arma-te de força, braço do Senhor” (Is
51.9). E posso até ouvir Paulo dizer: “Faz de mim tua espada, teu
armamento de guerra”.
Outra verdade sobre a qual Paulo se apoiava era a bendita certeza de
que “deixar o corpo” era “habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Para ele não há
o sono da alma, nem aquele interminável estado intermediário, nada disso.
Sair de uma vida é entrar logo na outra. Ante a idéia da eternidade, a
linguagem era falha, e a imaginação claudicava. E ele considerava as
chicotadas, as cadeias, os jejuns, cansaços e dores como uma “leve e
momentânea tribulação”, que seria compensada pelo fato de que
“estaremos para sempre com o Senhor”. Os demônios desperdiçaram sua
munição contra Paulo. Portanto, é de se admirar que um deles tenha dito
“e sei quem é Paulo?”

E a última verdade sobre a qual o apóstolo ancorava sua alma era:
“Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo”
(2Co 5.10). O fato de ele viver sempre com os olhos fixos nos valores eternos
fez com que essa prova final também perdesse seu aguilhão. Vivendo da
maneira certa aqui na terra (e não me refiro apenas em viver retamente,
mas segundo o padrão proposto na Palavra de Deus), resolve-se o
problema do além. Paulo se tornara tão semelhante ao Filho que podia
dizer: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em
mim, isso praticai” (Fp 4.9). De um modo geral, é meio arriscado imitar uma
cópia. Mas no caso de Paulo não, pois ele se achava plenamente rendido a
Cristo, santificado e satisfeito, isto é, “aperfeiçoado em Cristo”.
Será que alguém ainda acha estranho um demônio haver dito “e sei
quem é Paulo?” Eu não.

Capítulo 20 do livro "Por que tarda o pleno avivamento?"

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Sobre o site Altar de Arrependimento

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